Café, energéticos, chás e novos formatos prontos para beber disputam um consumidor que quer disposição, sabor e praticidade no mesmo copo
Uma xícara às sete da manhã, uma lata gelada antes do treino, um chá mate na sobremesa e um cold brew na mesa do escritório. Em um único dia, boa parte dos brasileiros consome cafeína de quatro ou cinco fontes diferentes sem pensar nisso como uma escolha de categoria.
Para a indústria e para o varejo, porém, é exatamente disso que se trata. Poucas famílias de produtos conseguiram manter crescimento consistente em anos de inflação alta, renda apertada e mudança de hábitos, e as bebidas com cafeína estão entre elas.
O que explica esse desempenho não é um único fator, e sim uma combinação de cultura, ciência, marketing e logística. Vale entender cada peça separadamente.
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Uma base cultural que nunca saiu de moda
O Brasil é o maior produtor mundial de café e o segundo maior consumidor, atrás apenas dos Estados Unidos. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) apontam que o consumo interno supera 21 milhões de sacas por ano, algo próximo de 80 litros da bebida por habitante.
O café coado, o pingado de padaria e o cafezinho depois do almoço são rituais que atravessam classes sociais e regiões. Essa base cultural funciona como piso para toda a categoria. Quando um novo produto com cafeína chega ao mercado, ele não precisa convencer o brasileiro a gostar do efeito estimulante.
Esse trabalho já foi feito há gerações. A tarefa das marcas passou a ser outra: oferecer o mesmo efeito em formatos, sabores e ocasiões de consumo que o café tradicional não cobre. No Sul do país, a relação é ainda mais intensa, porque se soma ao chimarrão e ao tererê.
O gaúcho médio consome erva-mate diariamente, e a erva contém cafeína em quantidade comparável à de uma xícara de café fraco. Isso cria um público habituado a estímulos leves e contínuos ao longo do dia, terreno fértil para chás gelados, mates prontos e energéticos de baixa dosagem.
Os energéticos deixaram de ser produto de nicho
Durante anos, o energético foi associado a baladas e a estudantes em véspera de prova. Esse perfil mudou. Levantamentos da NielsenIQ mostram que o segmento cresceu em volume no Brasil mesmo em trimestres nos quais o varejo alimentar geral encolheu, e que as versões sem açúcar passaram de cerca de 12% para 16% de participação dentro da categoria em pouco mais de um ano.
Dois movimentos ajudam a entender esse salto. O primeiro é a chegada de marcas nacionais com preço mais baixo e embalagens maiores, incluindo garrafas de um e dois litros, que levaram o produto para churrascos, jogos de futebol e mesas de bar.
O segundo é a profissionalização das marcas globais, que passaram a patrocinar esportes de massa, corridas de rua e eventos de música com plateias de dezenas de milhares de pessoas.
O resultado foi uma mudança na ocasião de consumo. Hoje o energético divide espaço com refrigerante e cerveja no balcão da conveniência, e não é raro encontrar motoristas de aplicativo, entregadores e trabalhadores de turno noturno entre os compradores mais frequentes. A bebida saiu do território da festa e entrou no território do trabalho.
Chás e mates prontos ocupam o meio do caminho
Entre o café quente e a lata de energético existe uma faixa de consumidores que quer cafeína sem os dois extremos. É para esse público que crescem os chás gelados, os mates engarrafados e as bebidas à base de guaraná natural.
O mate gelado, popular no Rio de Janeiro há décadas, ganhou distribuição nacional e versões com limão, pêssego e frutas vermelhas. O guaraná em pó e em cápsula, tradicional na região amazônica, apareceu em bebidas prontas com apelo de ingrediente brasileiro.
Já os chás verdes e pretos prontos para beber, que demoraram a emplacar, encontraram espaço em farmácias, academias e cafeterias, quase sempre com a promessa de menos açúcar.
Esse segmento tem uma característica importante: ele atrai quem está reduzindo o consumo de refrigerante. Pesquisas de comportamento do consumidor da Euromonitor mostram que mais da metade dos brasileiros adultos declara estar tentando cortar açúcar ou álcool. As bebidas com cafeína e baixo teor calórico capturam parte dessa migração.
O café também se reinventou
Enquanto energéticos e chás ganhavam prateleira, o café não ficou parado. Três movimentos internos mantiveram a bebida em crescimento de valor mesmo em anos de consumo estável em volume.
O primeiro foi a expansão das cápsulas e dos monodoses, que trouxeram o café espresso para dentro das casas e dos escritórios pequenos. O segundo foi a valorização dos cafés especiais, com origem identificada, torra clara e notas sensoriais descritas no rótulo, algo que há quinze anos era restrito a poucas cafeterias das capitais.
O terceiro, mais recente, foi o café pronto para beber, seja em lata, seja em garrafa, no formato cold brew ou latte. O cold brew merece atenção à parte. Extraído a frio por longas horas, ele tem acidez menor e sabor mais doce, o que agrada a quem não gosta do café quente tradicional.
Grandes torrefadoras e cafeterias de rede passaram a vender a bebida engarrafada, e distribuidores regionais começaram a incluí-la em catálogos ao lado de sucos e águas saborizadas.
A ciência mudou a conversa sobre o consumo
Por muito tempo, a cafeína carregou a fama de vilã. Estudos publicados nas últimas duas décadas em periódicos como o New England Journal of Medicine e revisões sistemáticas indexadas na SciELO reposicionaram a substância.
Em doses moderadas, o consumo regular de café está associado a menor risco de diabetes tipo 2, doenças hepáticas e alguns tipos de câncer, além de melhorar atenção e desempenho cognitivo em tarefas de curta duração.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamenta a presença de cafeína em bebidas e estabelece limites de concentração por porção. A referência mais usada por autoridades de saúde é a de 400 miligramas por dia para adultos saudáveis, o equivalente a três ou quatro xícaras de café coado.
Essa clareza regulatória e científica deu segurança para a indústria comunicar o produto sem os subterfúgios de antes e para o consumidor incluir a cafeína na rotina sem culpa. Isso não elimina os cuidados. Crianças, gestantes e pessoas com arritmias cardíacas continuam recebendo recomendação de restrição.
Também há debate sobre o consumo de energéticos combinados com álcool, prática que mascara a sensação de embriaguez. Mas o consenso geral migrou de “evite” para “consuma com moderação”, e isso faz diferença no volume de vendas.
A logística decidiu quem cresce e quem fica para trás
Se cultura, ciência e marketing criaram a demanda, foi a distribuição que transformou essa demanda em faturamento. Bebidas com cafeína têm um perfil logístico exigente: giro rápido, necessidade de refrigeração no ponto de venda, embalagens de vidro e alumínio sensíveis a transporte, e uma capilaridade que precisa alcançar conveniências, padarias, academias e pequenos mercados de bairro.
Nas cidades médias do interior, esse trabalho é feito por distribuidores regionais que concentram dezenas de marcas em um único caminhão. Conforme proclamam os especialistas da praça de fornecedor de bebidas em Passo Fundo, o pedido típico de um bar ou de uma loja de conveniência mudou de perfil nos últimos anos: onde antes havia apenas cerveja e refrigerante, hoje entram energéticos em várias gramaturas, chás gelados, mates e café em lata.
Passo Fundo, que funciona como entreposto para o norte do Rio Grande do Sul, é um bom termômetro porque abastece desde cidades universitárias até rotas de caminhoneiros na BR-285.
Esse fenômeno se repete em polos regionais de outros estados. O distribuidor que consegue manter sortimento amplo e entrega frequente ganha a preferência do varejista, que por sua vez consegue testar novos sabores e formatos sem comprometer capital de giro. A categoria cresce, em boa medida, porque a cadeia de abastecimento aprendeu a lidar com ela.
Preço, formato e a disputa pelo balcão
Um detalhe que costuma passar despercebido é o papel da embalagem no crescimento. Latas de 250 ml, 473 ml e garrafas de dois litros atendem a bolsos e ocasiões diferentes. A lata pequena serve ao consumo individual e imediato; a garrafa grande divide o custo entre amigos.
Essa segmentação permitiu que o energético entrasse em regiões de renda mais baixa sem perder a imagem de produto premium nas capitais. No café pronto e nos chás, a lógica é semelhante. Garrafas de 300 ml competem por espaço na geladeira das conveniências, onde a disputa é por centímetros de prateleira e visibilidade.
Distribuidores relatam que a rotatividade de sabores é maior do que em qualquer outra categoria de bebida não alcoólica: lançamentos entram e saem em meses, e o varejista depende do fornecedor para saber o que está girando em cidades vizinhas.
O que esperar dos próximos anos
As projeções de consultorias do setor apontam crescimento anual acima de 7% para os energéticos na América Latina até o fim da década, e o Brasil responde pela maior fatia desse volume.
O café pronto para beber ainda é pequeno em números absolutos, mas cresce em dois dígitos a partir de uma base baixa. Os chás e mates prontos devem seguir capturando consumidores que abandonam o refrigerante.
Há riscos no horizonte. Discussões sobre tributação de bebidas açucaradas podem afetar parte do portfólio, e a pressão por rótulos mais claros sobre teor de cafeína tende a aumentar. Marcas que apostarem em versões sem açúcar, em ingredientes brasileiros como guaraná e erva-mate e em uma rede de distribuição capilar devem sair na frente.
Enquanto isso, o brasileiro segue com sua xícara de manhã e sua lata gelada à tarde, muitas vezes sem perceber que está sustentando uma das categorias mais dinâmicas do varejo nacional. A cafeína, no fim das contas, nunca precisou de campanha para ser desejada. Precisou apenas de novos jeitos de chegar até quem já gostava dela.